ACADEMIA MARANHENSE DE CIÊNCIAS, LETRAS E ARTES MILITARES - AMCLAM

PATRONO

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Cadeira nº 38

(Deputado Provincial, primeira legislatura (1835-1836) do Conselho Geral da Província, gênese da futura Assembleia Legislativa Provincial. Um dos propositores do projeto de lei que transformado na Lei Provincial n° 21/06/1836, criou o Corpo Policial da Província, atual Polícia Militar do Maranhão).

 

Pouco, dir-se-ia mesmo quase nada, cabe registrar, neste livro, sobre a ascendência do grande maranhense, o coronel de engenheiros José Joaquim Rodrigues Lopes. Bueno & Barata (1999) não trazem qualquer informação sobre sua figura brilhante, nem incluíram nos milhares de verbetes sobre inscritos em ordem alfabética, o título do barão de Matoso, conferido pelo governo de Portugal ao engenheiro maranhense, que foi, inclusive, escritor, como faz boa prova Blake (1900).

Não há, também, registros sobre ele no Catálogo, nem sobre seus ancestrais, como acontece a respeito da vida e obra de outros fidalgos e titulares maranhenses constantes deste ensaio. O barão de Matoso não irá figurar neste livro com o assento de seus ascendentes, embora se possa afirmar que os Rodrigues e os Lopes são famílias de alta linhagem portuguesa que por aqui chegaram, tanto quanto outros ilustres lusitanos, no século XVIII.

Quem revela os nomes de seus pais é Ribeiro do Amaral (1923), sem acrescentar nada sobre as vidas e obras deles. Informa apenas que José Joaquim Rodrigues Lopes nasceu em São Luís do Maranhão em 13 de janeiro de 1803 e que era filho de outro José Joaquim Rodrigues Lopes e de sua mulher, Brígida Rosa Lopes.

 

VIDA ESTUDANTIL

 

Com base no autor citado e em César Marques (1970) sabe-se que o menino José Joaquim estudou na capital maranhense as primeiras letras, seguiu sua instrução com as aulas de gramática latina, ao que se supõe, com os padres-mestres daquela época, habilitando-se igualmente em outras matérias. Pela casa dos 16 ou 17 anos, foi mandado por seus genitores a Portugal, a fim de completar os então chamados preparatórios, por ele feito no Colégio dos Nobres. Naquele estabelecimento, Rodrigues Lopes estudou dois anos, especializando-se em ciências matemáticas. Matriculado, em seguida, na escola médico -cirúrgica, que integrava a Universidade de Coimbra, graduou-se em ciências físicas e químicas, matemático, físico e geógrafo, sua carreira teria que ser a engenharia. Ao retornar ao Maranhão, foi admitido no Exército real da capitania no posto de 2º tenente de engenheiros, com nomeação que já trouxe da Corte. Este é um sinal de que tinha, em Coimbra ou em Lisboa, parentes influentes, disso sendo prova de título de nobreza que recebeu em Portugal, mas não no Brasil.

 

CARREIRA PROFISSONAL

 

Foi no ano de 1827 que o tenente José Joaquim Rodrigues Lopes retornou à terra natal. Nos primeiros cinco anos, dedicou-se à caserna e ao aperfeiçoamento de seus conhecimentos científicos.  Já andava com seus galões de capitão de engenheiros, em 1832, quando o governo o convocou para o seu trabalho inaugural: o planejamento e construção do cemitério da Sta. Casa da Misericórdia, em São Luís. Presidia a provincial o desembargador Cândido José de Araújo Viana (1832 – 1834) e naquela tarefa teve como ajudante um parente, provavelmente o avô do historiador José Ribeiro do Amaral, o tenente de engenheiros Manoel Ribeiro do Amaral.  Concluída a obra houve nova convocação: planificação e recuperação dos velhos faróis de São Luís, entre eles os faróis de Santana e de Itacolomi que foram inteiramente remodelados. Esses trabalhos estavam concluídos em 1839, no período nefasto em que o Maranhão se engolfava na sangrenta Balaiada.

 

A PIRÂMIDE

 

Quem, nestes dias, passa pela Avenida Beira Mar, numa de suas meias- laranjas, observa a artística pirâmide de cantaria ali sentada, como uma longa inscrição indicando a satisfação do povo maranhense pela sagração do novo imperador, Pedro II, em 1840. Essa peça foi, inicialmente, chantada no antigo parque Urbano Santos e só mais tarde transferida para a orla marítima. Obra do engenheiro Rodrigues Lopes.

 

O CAIS DA SAGRAÇÃO

 

Foi de sua autoria, também, o projeto e a construção do Cais da Sagração, amurada de pedras retangulares sobrepostas com tal precisão e técnica que, decorridos quase dois séculos, resiste, de seis em seis horas, à força dos mares. Em uma de suas aberturas, que serviram por muito tempo para embarque e desembarque de pessoas, há duas escadarias igualmente de pedras, para a subida e descida de pessoas e mercadorias que circulavam entre a capital e as cidades do interior, ligadas por navegação marítima e fluvial. O cais ficou pronto em 1845.

 

ARMAZÉM DA PÓLVORA

 

Velhas fotografias de São Luís antiga registram, nas proximidades do Palácio dos Leões, sede do Executivo do Maranhão, numa área aplainada e sem habitações, junto ao mar já contido pelo cais, um imenso armazém onde era depositada a pólvora das guarnições militares da capitania, foi mais uma obra de José Joaquim Rodrigues Lopes.

 

OUTRAS OBRAS

 

Com ênfase, diz Ribeiro do Amaral (1923) que entre 1827 e 1845 nada se fez, em matéria de obras públicas, fossem do governo central, provinciais ou municipais, que não houvesse passado pelas pranchetas do major de engenheiros José Joaquim Rodrigues Lopes.

Assim, as seculares fontes das Pedras e do Ribeirão, esta última construída no governo de d. Fernando Antônio de Noronha, já apresentavam, em meados do século XIX, sinais de ruínas, encontrando-se inapropriadas para a utilização pública, Rodrigues Lopes restaurou-as, construiu a casa do júri de São Luís, fez o projeto e construiu o edifício da Assembleia Legislativa Provincial, no mesmo local em que o Legislativo ainda funciona, embora com sua fachada inteira e criminosamente mutilada, como aconteceu cm boa parte da cidade colonial, com o seus belos casarões destruídos para dar lugar aos bangalôs de gosto duvidoso.

 

VIAGEM AO RIO DE JANEIRO

 

Quando presidiu o Maranhão o conselheiro Manoel Felizardo de Sousa Melo, ele conheceu a Rodrigues Lopes e dele teve aquela boa impressão que só os homens de bem, honrados e competentes inspiram. Convidou-o para ir à Corte do Rio de Janeiro onde, seguramente, com suas qualidades positivas, alcançaria destaque. José Joaquim partiu rumo ao Sul e logo o imperador o fez diretor da fábrica de pólvora da Serra da Estrela. Seguiram-se outras comissões, como a de diretor de obras públicas militares da capitania de Pernambuco.

De volta ao Norte, em viagem oficial, fez novo projeto para a fortaleza de Macapá e outros fortes da capitania do Pará. Mal retornou ao Rio de Janeiro, agora, com patente de coronel de engenheiros, foi mandado à província da Bahia, como comandante das armas e, mais tarde, designado para presidir a comissão que iria traçar limites de fronteiras no Rio Grande do Sul. Nomeado pata o Supremo Tribunal Militar, serviu naquela corte de justiça no cargo de secretário, onde tomou posse no ano de 1859.

Com o início da Guerra do Paraguai, o coronel Rodrigues Lopes foi convocado para importante missão militar, pelo marquês de Caxias. Luís Alves de Lima e Silva. Deveria preparar um engenhoso plano técnico e militar para que fosse arrasada pelas forças brasileiras a, até então, inexpugnável fortaleza de Humaitá, o que se realizou com êxito absoluto. O brigadeiro Rodrigues Lopes faleceu no Rio de Janeiro em 30 de março de 1895, com 92 anos.

 

TÍTULOS E MERCÊS

 

Quando, afinal, no último posto da carreira das armas, o de marechal de campo, veio a falecer. Rodrigues Lopes tinha estas condecorações e mercês: cavaleiro da Casa Real portuguesa; fidalgo- cavaleiro da realeza de Portugal; cavaleiro da Ordem de São Bento de Avis; oficial da Ordem Rosa, pelo Brasil; comendador da Ordem de Cristo pelo Reino português e Império brasileiro; comendador da Ordem de N. S. de Vila Viçosa, Portugal; comendador da Ordem de Santiago da Espada, Portugal; condecoração especial com a medalha da Guerra do Paraguai, além de quase todas as para oficiais superiores e oficiais-generais do Exército Imperial Brasileiro. Tendo muitas amizades e parentes com prestígio em Portugal, o governo de Lisboa agraciou Rodrigues Lopes com o título de barão de Matoso. Não há notícia sobre a respectiva carta de brasão de armas.

 

BIBLIOGRAFIA DO MARECHAL LOPES

 

Rodrigues Lopes enriqueceu a bibliografia brasileira com várias obras em sua especialidade, além de ter sido o autor de uma centena de projetos de construções civis e militares. Esta é sua bibliografia, inclusive com alguns inéditos: Mapa de uma parte da província do Maranhão para servir de limites, entre as comarcas de Caxias, Brejo e Itapecuru-Mirim. Manuscrito; Documentos sobre a pirâmide do Campo de Ourique do Maranhão. São Luís: 1894, 20pp. In 4º, com estampas; Plani-história ou mesmo sinótico-histórico-genealógico do Império e do Reino de Portugal e das famílias reinantes nestes países, oferecido ao Imperador do Brasil e a D. Pedro V, rei de Portugal. Recife: 1858. 2ª. Ed. Rio: 1871, in fólio; Mapa topográfico da parte da República do Paraguai que tem sido acompanhado pelos exércitos aliados, construído por ordem do exmº sr marquês de Caxias.  Rio: 1868. O original desse mapa foi exibido na exposição História Pátria pelo imperador Pedro II; Carta geral da província do Maranhão. Rio: 1841, corrigida e aumentada.

 

O POLÍTICO

 

Dois anos depois de retornar de Portugal, em 1829, houve eleições para escolha dos primeiros membros do Conselho Geral da Província, gênese da futura Assembleia Legislativa Provincial. Não sendo eleito, ainda assim o tenente Rodrigues Lopes foi convocado, já que era suplente, no Conselho prestou serviços ao Maranhão. Sobrevindo, em 1834, a primeira eleição para a escolha de nossos deputados à primeira legislatura (1835-1836), Rodrigues Lopes elegeu-se em oitavo lugar, com expressiva votação. Reelegeu se para a legislatura 1837-1838, 1839-1840 e 1841-1842. Foi membro das mesas diretoras durante seus mandatos, ora como vogal, ora como 1º secretário, ora como 2°.

No exercício do mandato, teve atuação destacada com os requerimentos que apresentou visando melhorias das obras públicas, notadamente militares, da província. Propôs a instituição de uma pensão vitalícia para todas as viúvas dos militares mortos na Balaiada; pediu aumento para os promotores de justiça e magistrados, que percebiam salários incompatíveis com suas altas funções. Como intelectual, pertenceu aos quadros da Sociedade Literária do Rio de Janeiro bem como a outras sociedades.

 

UMA FAMÍLIA ILUSTRE

 

Sousa (1976) menciona o engenheiro e comendador Luís José Joaquim Rodrigues Lopes, irmão do barão de Matoso, e fornece dados sobre ele. Por essas informações, fica confirmada a filiação do marechal maranhense. Seus pais eram, como primeiramente revelou Ribeiro do Amaral (1923), José Joaquim Rodrigues Lopes e sua mulher, Brígida Rosa Lopes. Esse irmão do barão, apesar de formado, preferiu ganhar dinheiro como fazendeiro cm Guimarães. Lá, casou-se com uma descendente da família Coelho de Sousa, Ana Francisca Coelho de Sousa, filha do patriarca Manuel Coelho de Sousa e de sua mulher, Maria Francisca da Pureza Gomes. Foi ela a quinta filha do casal. Casou-se Francisca com Luís José Joaquim Rodrigues Lopes, na vila Guimarães, em 31 de julho de 1844, conforme Sousa (1976), que não obstante, faz certa confusão entre dois irmãos, porque, em verdade, quem foi deputado, diretor do Banco Comercial do Maranhão e autor de obras públicas na província foi seu irmão, o barão de Matoso.

Do casamento de Luís José Joaquim com Ana Francisca, nasceu o grande médico, jornalista e político maranhense Tarquínio Brasileiro Lopes, em 30 de junho de 1848. Este, tendo casado com sua prima Rosa Laura Carvalho Leite, teve 14 filhos. Vejam-se as descendências de dois deles: Tarquínio Lopes Filho, médico de nomeada, parlamentar, jornalista e político na chamada República velho, muito conhecido na história do Maranhão. Outra descendente de Tarquínio, o velho, foi Vera Violeta Leite, que foi mandada para o sul do país, ao que se presume a estudos. Lá, veio a se casar, em 1916, com o negociante Godofredo de Sousa Meireles, autor de obras de direito que seguem vivas em sucessivas reedições. O marechal e barão era, deste modo, tio de Tarquínio Brasileiro Lopes, tio-avô do segundo Tarquínio e também tio-avô do jurisconsulto Heli. Na qualidade de suplente de deputado no período imperial, Rodrigues Lopes assumiu o cargo de deputado geral pelo Maranhão na legislatura de 1857-1860.

 

Referência:

COUTINHO, Milson. Fidalgos e Barões, uma história da nobiliarquia luso-maranhense. São Luís: Editora Instituto Geia, 2005, 483 p. (Coleção Geia de Temas Maranhenses, v.8).

 

[1] VIEIRA FILHO, Domingos. A Polícia Militar do Maranhão: Síntese Histórica. Rio de Janeiro: Olímpica, 1975. p. 16, 106p.